07.01.2020
Cidades inteligentes: benefícios e riscos dos novos ecossistemas de matriz urbana
As cidades, desde sempre,
têm-se assumido como verdadeiras forcas motrizes do desenvolvimento social,
económico e tecnológico das sociedades. Nos tempos que correm esse papel está a
ser cada vez mais evidente e impactante, fundamentalmente em resposta a um
crescimento, sem precedentes, da sua população.
Segundo os recentes
estudos demográficos da ONU, 55% da população mundial vive atualmente em
cidades, sendo que a previsão é de que, em 2050, essa percentagem atinja os
68%.
Esta pressão demográfica,
conjugada com o advento da quarta revolução industrial (ou indústria 4.0), esta a
transformar o paradigma das cidades a uma velocidade vertiginosa, obrigando-as
a serem eficientes, sustentáveis, baseadas em tecnologia e no "digital”, ou
seja, numa expressão: mais "inteligentes”.
Inteligentes na forma como
se (infra) estruturam, se organizam e gerem os vários recursos e serviços que a
compõem, de forma integrada e conectada.
Estas novas cidades estão
a transformar-se em novos ecossistemas, de matriz urbana, assentes em sistemas híbridos
que combinam o mundo físico e o cibernético, onde equipamentos, processos
digitais e interconectividade coexistem, comunicam e interligam-se.
Com efeito, são diversos
os exemplos em que a internet das coisas (por exemplo, sistemas de
videovigilância dotados com softwares de reconhecimento facial ou sensores que
monitorizam e registam permanentemente uma miríade de dados como a temperatura,
humidade, luminosidade, velocidade do vento, fluxo
de tráfego, de pessoas, etc.), a "Cloud”, a inteligência artificial, o
"Big Data”, a automação, a economia partilhada e a robótica constituem, já
hoje, o sistema nervoso central de cidades coma Viena, Londres e Singapura.
Este ecossistema digital
gera diversos benefícios, desde logo ao nível da eficiência de recursos, da gestão
do trafego e da mobilidade, do aumento dos índices de sustentabilidade
ambiental, da prevenção e combate à criminalidade, etc.
Todavia, também produz,
inevitavelmente, novos perigos, vulnerabilidades e riscos. Ora, as cidades
inteligentes não fogem à regra, especialmente no mundo global em que estão
inseridas e por se alimentarem de um grau cada vez mais extremo de
interconectividade.
Neste contexto, riscos
relacionados com ciberataques, riscos de violação de direitos de privacidade e
confidencialidade, de falha de sistemas, de continuidade de negócio, de
responsabilidades – por exemplo, decorrentes de defeitos em equipamentos
(hardware) e erros profissionais (entre outros, software) – podem atingir proporções
dantescas, dado o nível de interdependência e de globalização que envolvem.
Assim, é absolutamente
crítico para todos os stakeholders das cidades (municípios, governos, empresas
e as próprias comunidades) conhecerem e compreenderem os seus riscos de forma
rigorosa.
Nessa medida, mais do que
nunca, a implementação de modelos de gestão e de transferência de riscos deve
ser tratada como um tema crítico e estratégico de todas as organizações.
O desenvolvimento de estratégias
de gestão do risco implica a sua identificação e análise, bem como a sua monitorização
em tempo real, e deve incluir o desenho de medidas concretas de mitigação e antecipação
do sinistro. Adicionalmente, em caso de sinistro, deve prever medidas para a contenção
dos danos e agilização da recuperação de sistemas, negócios e atividades.
É de realçar que a
disponibilidade de dados e um conhecimento mais "inteligente" do
risco contribuirá para que o mercado segurador ajuste a sua oferta de produtos e
soluções à medida daquelas que são as reais necessidades e especificidades dos seus clientes.
A "inteligência" das
cidades e um admirável mundo novo que já marca o presente e será uma
"commodity” do futuro, sendo importante encará-la de forma científica e
sistemática através de metodologias de gestão e transferência de risco que, também
estas, beneficiem da transformação digital vigente.
Publicado na Revista Aspectos.