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Paula Rios Highdome PCC | Executive Director
06.11.2019

Homeless

Homeless é o termo utilizado em inglês para designar o que por cá chamamos "sem abrigo” – as pessoas que não têm casa e vivem na rua. Uma palavra dura, deprimente, porque significa o contrário daquilo que todo o ser humano deveria ter – um abrigo, uma casa onde viver. 

Nos últimos tempos, começo a ter a inquietante sensação de que todos nós, habitantes do Planeta Terra, mais cedo ou mais tarde nos iremos encontrar nessa triste situação.

É certo que não são de hoje os alertas sobre o aumento da temperatura na Terra: a consciência de que tinham de ser tomadas medidas para inverter o aquecimento global surgiu há cerca de 30 anos, e muito se poderia ter feito então para impedir aquilo a que hoje chegámos. Nessa altura eram previsíveis muitos dos fenómenos que hoje já assombram as nossas vidas, como as tempestades extremas frequentes, as inundações de zonas ribeirinhas, a desertificação de vastas áreas outrora férteis, a imolação pelo fogo de hectares e hectares de floresta, o fim dos glaciares, a poluição do ar que leva a um cada vez maior número de alergias e doenças respiratórias…e isto só para mencionar alguns dos fenómenos a que assistimos diariamente, com um sentimento de impotência crescente.

Nos últimos meses o tema das alterações climáticas, talvez por nos sentirmos cada vez mais fustigados pela Natureza, tem assumido uma importância cada vez maior ao nível dos media e das redes sociais.
Começamos a ouvir falar de "moda sustentável”, de estilo de vida zero waste, da necessidade da redução do consumo de carne como medida fundamental (não só pelo seu impacto nas emissões de gás metano, mas também pela quantidade de água necessária para manter as explorações pecuárias), todos os temas da mobilidade nas cidades, - com algumas a tomar medidas drásticas para reduzir a circulação de veículos automóveis privados…

Mas da discussão à acção, real e concreta, vai um longo caminho, e temos a plena consciência de que tudo aquilo que já se está a fazer peca por insuficiente. Pois em trinta anos muito mais se poderia ter feito: os governos têm "empurrado com a barriga”, porque a verdade é que governam a curto prazo e, até recentemente, ser "verde” não atraía votos. Felizmente, e como pudemos ver por recentes resultados de eleições, quer por cá quer lá fora, a realidade está a mudar, e as preocupações ambientais começam a ganhar votos. Principalmente uma geração, como a de Greta Turnberg, que quer ter uma casa no futuro, e acusa os políticos – como ela fez na Cimeira Climática, em Nova Iorque, e de forma desassombrada – de lhes roubarem "os sonhos e a infância”. Para não falar no futuro…

Chegámos a um ponto em que a responsabilidade - e a consequente acção – não é só dos governos, é de todos. É certo que cabe aos Governos assumir grandes compromissos – e parece que alguns, sérios, foram agora assumidos - como o da Alemanha ter uma neutralidade de carbono em 2050, a decisão da Rússia de ratificar o Acordo de Paris, o compromisso de 77 países de cortarem as emissões de gases de efeito de estufa para zero até 2050, e da China e da Índia (países muito populosos) de cortar drasticamente as emissões e investir em energias renováveis.

Mas também cabe às empresas e aos indivíduos desempenhar um papel activo nesta luta. Em Nova Iorque também um conjunto significativo de empresas assumiu sérios compromissos face aos seus investimentos em energias "limpas”, deixando de incluir nas suas carteiras investimentos no sector dos combustíveis fósseis e outros poluidores. No que respeita a nós, cidadãos, é fundamental a formação, a educação, a informação. Porque razão nas escolas se ensinam temas, por vezes áridos e com tão pouco impacto na vida prática e não se promove a educação ambiental? E promover campanhas de sensibilização fortíssimas, de grande impacto, para mudar comportamentos e, já agora, deverão ser facilitados os comportamentos "sustentáveis”, por exemplo, disponibilizando mais ecopontos ou explicando como poupar água, que ainda é tão desperdiçada. Enfim, há todo um conjunto de informação e educação ambiental que têm de ser partilhadas com os cidadãos, para que todos nós possamos fazer mais e melhor.

É evidente que, a partir dum certo momento, temos de ter a noção de que algum conforto se poderá perder e que teremos de fazer alguns sacrifícios. Há dias, num site dedicado ao esclarecimento de questões ambientais alguém colocava uma questão muito pertinente: "para salvar o ambiente, vamos ter de ser pobres?”. A resposta era dada com algum sentido de humor. Dizia que não forçosamente, mas que provavelmente nos deveremos habituar a viver com menos: menos roupa, menos comida - ou certo tipo de comida - e certamente menos água. Uma cultura de parcimónia irá, sem dúvida, dar um forte contributo para uma maior sustentabilidade. 

E afinal, isto até poderá nem ser assim tão mau. Segundo o Prof. Filipe Duarte Santos, especialista em Alterações Climáticas, é errado pensar que a preocupação com o ambiente é um entrave ao desenvolvimento económico. Aliás, o mesmo afirma que se trata precisamente do contrário: a utilização sustentável dos recursos naturais irá beneficiar as economias, o que acontece nos países onde a reciclagem e a economia circular são já uma realidade significativa. Por isso defende a reciclagem das matérias-primas, o retorno aos produtos com durabilidades longas, o consumo dos recursos naturais adequado à sua sustentabilidade e um modelo de desenvolvimento assente em energias renováveis e não nos combustíveis fósseis. Isto implica a necessidade de alteração dos hábitos alimentares, com uma drástica redução do consumo de carne, e uma alteração radical ao nível da gestão da água, considerada "o petróleo do séc. XXI”. 

Apesar das evidências, alguns políticos ainda teimam, inacreditavelmente, em considerar as alterações climáticas uma invenção, António Guterres, na sua intervenção de ontem, deixou uma forte mensagem: "a emergência climática é uma corrida que estamos a perder mas que ainda apodemos ganhar”. Greta Thunberg acusou os dirigentes do mundo de ganância, e avisou-os de que "a mudança vai chegar, gostem ou não”. E o Papa Francisco, que participou por videoconferência, pediu "vontade política” dos governos no sentido da aceleração das medidas necessárias para e atingir o nível zero de emissões de gases com efeito de estufa.

Depois de tantos meses a falar deste tema, é bom que a discussão continue, mas é bom também que medidas concretas sejam implementadas. Vamos ter de mudar hábitos de vida, sem dúvida. Alguns, vão custar a perder. Mas não valerá a pena fazer alguns sacrifícios para mantermos a nossa casa? Porque, ao contrário dos sem abrigo, se perdermos esta não temos a rua para onde ir. Se a Terra, que é a nossa casa, deixar de ter condições para a vida humana – e bastará, segundo os especialistas, um aumento de temperatura de 2°C para tal - todos iremos perecer. Vai ser muito mais, muito pior que Homeless. Mantendo a referência cinematográfica, vai ser mesmo, para todos os humanos e animais habitantes no planeta Terra, The End.
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