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Paula Rios Executive Director MDS Portugal
09.09.2018

A vingança de S. Pedro

Este ano não há cidadão português que não se lamente de que "o Verão não chegou”. Uns pedem clemência a S. Pedro (o Santo tradicionalmente ligado ao tempo) e os mais informados concluem com um ar sabedor que "são as alterações climáticas! E o Trump diz que não existem…”. 

Já o ano passado assistimos a uma devastação ambiental, em que o inferno dos fogos destruiu perto de 500.000 hectares de floresta, com enormes danos ambientais e económicos. É do conhecimento geral que os fatores em causa, entre eles a secura dos terrenos (por oposição à elevada chuva destes últimos meses) e os estranhos fenómenos atmosféricos que agravaram os fogos, são consequência das alterações climáticas, tendo por sua vez criado condições para o desastre ambiental que se verificou. 

Infelizmente estes fenómenos não vão cessar, mas antes intensificar-se: nos países do sul da Europa, por exemplo, prevêem-se longos períodos de seca seguidos por períodos de chuvas intensas "fora de época” – e qualquer paralelo com o que se passou em Portugal no ano passado e durante esta Primavera e Verão não será pura coincidência.

Segundo o Prof. Filipe Duarte Santos, Presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e reconhecido especialista em questões ambientais, se não controlarmos as alterações climáticas as catástrofes irão tornar-se cada vez mais frequentes. 

Pergunta-se então, e numa coluna que pretende falar de risco e seguros, o que pode fazer o setor segurador para minimizar um problema que vai a caminho de se converter em tragédia, e que num primeiro momento cabe aos Estados resolver, desde logo através do Acordo de Paris para reduzir as emissões de CO2 e adoptando medidas de favorecimento e promoção de energias renováveis, economia circular e educação dos cidadãos.

Quanto ao setor segurador, pode fazê-lo cumprindo a sua missão com uma intervenção importante a montante, numa perspetiva de prevenção e mitigação do risco, e a jusante, em termos de reparação de danos. 

Na primeira vertente, o setor segurador tem promovido diversos estudos sobre eventos catastróficos, como inundações e tremores de terra só para citar dois casos. Fruto do trabalho desenvolvido, os quais contribuíram, por exemplo, para a existência de regras de construção anti-sísmica ou que impedem a proliferação de edifícios em zonas ribeirinhas.

Na mesma linha, o setor tem criado mecanismos robustos de assunção de riscos, como pools para riscos catastróficos ou ambientais, em que vários players do setor se associam para criar maior capacidade e know how; desenvolvendo produtos inovadores, como foram a seu tempo os seguros de responsabilidade ambiental e são hoje os seguros paramétricos que visam compensar os empresários cujos negócios são mais facilmente afectados pelas inconstâncias do clima.

Por exemplo, os proprietários de hotéis de estâncias de neve que subitamente se deparam com um clima de quase Verão em Fevereiro – e sem a neve procurada pelos turistas – ou os fabricantes de cervejas a quem um Verão mais fresco e chuvoso do que o habitual pode deixar nas prateleiras dos bares e restaurantes os seus produtos, têm hoje a oportunidade de ver a sua quebra de receitas compensadas através de seguros. 

Contudo, se muitas vezes o setor segurador pode criar, e suportar por si próprio, soluções para estes riscos emergentes, outras há em que, pela dimensão catastrófica das possíveis consequências, necessita do apoio dos Governos para montar um esquema de protecção.

É o caso do tão desejado Fundo Sísmico em Portugal que se tem vindo a arrastar por falta de vontade governativa após um extenso trabalho realizado pelo setor, sob a liderança da APS.

Na segunda vertente, a jusante, o setor segurador tem um papel crucial na sociedade indemnizando os prejuízos sofridos pelos seus segurados, permitindo a recuperação de famílias e empresas e gerando, assim, enorme valor para a sociedade, à qual devolve milhões. Aliás, ainda no ano passado, e em consequência da tragédia dos incêndios, o setor foi muito para além do que lhe competia.

Para além do pagamento célere de todas as indemnizações ao abrigo dos seguros de incêndio dos bens afetados, constituiu ainda um fundo de solidariedade no sentido de apoiar os feridos graves e os familiares das pessoas falecidas nos incêndios.

Um conjunto relevante de seguradoras uniu-se e realizou contribuições, ex gratia, para este fundo, reunindo-se um valor superior a €3M num gesto de solidariedade sem precedentes.

Vivemos um momento em que sabemos que o nosso planeta está irremediavelmente ferido pelas agressões que o ser humano lhe inflige diariamente.

Ao mesmo tempo que uma das maiores potências do mundo nega a realidade do "aquecimento global”, ficamos apavorados ao ver as previsões das consequências da possível subida das temperaturas até ao fim deste século se não foram tomadas medidas drásticas de redução das emissões de gases com efeito de estufa.

Como disse brilhantemente numa recente entrevista Vandana Shiva, a física, pensadora e ativista pelo meio-ambiente: "a Terra vai sobreviver. Porque a Terra já viveu em épocas mais quentes, mais frias, viveu com dinossauros, sem dinossauros e viverá com seres humanos ou sem eles. A Terra é muito poderosa, vai encontrar um caminho”. Segundo ela, nós – seres humanos – somos dispensáveis, pelo que somos nós que precisamos de preservar o nosso planeta, se queremos que continue a ser a nossa casa. Porque a Terra vai perdurar, connosco ou sem nós.

Assim, resta-nos ter a inteligência para compreender o que estamos a fazer e mudar formas de pensar e de agir. O setor segurador estará ao lado da sociedade nesse percurso, como o faz há centenas de anos. A exercer a sua função de prevenção, protecção e também constante inovação, através da criação de novas soluções que respondam às necessidades da sociedade.

E já agora, um pouco de fé também ajuda. Que tal pedir a S. Pedro para aplacar a sua vingança – quem sabe ainda nos traz um bocadinho de Verão como deve ser? 



Publicado no Vida Económica


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