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O regresso dos Dinossauros?

Trivia

O regresso dos Dinossauros?
De acordo com uma divulgada teoria científica, terá sido um asteroide gigante que, ao colidir com a terra há 65 milhões de anos, contribuiu para a extinção dos dinossauros, cujas várias espécies herbívoras e carnívoras depredadoras de grandes recursos alimentares devido ao seu porte, dominavam a Terra. As emissões maciças de CO2 e Metano que se libertaram para a atmosfera terão causado um desastre ecológico global, alterando o clima e causando a extinção de mais de metade das espécies que não conseguiram adaptar-se, possibilitando aos mamíferos emergirem da sombra lançando as bases para que o ser humano se tornasse na espécie dominante do planeta. 

Nos tempos que correm, apesar dos modestos progressos obtidos nas sucessivas Cimeiras do Clima, os defensores do quase unânime consenso científico, de que o efeito de estufa resultante das emissões de gases é o responsável pelo aquecimento global e pelas consequentes alterações climáticas, recomendam a adoção de uma proactiva e planeada estratégia de adaptação às alterações de clima, a fim de evitar efeitos catastróficos para as populações e para as economias. 

Encontra-se largamente divulgado, que esta redução de emissões resultantes do consumo intensivo de combustíveis fósseis na produção de energia elétrica, na indústria, e com especial relevo nos transportes, pode ser obtida através da sua substituição por formas de energias renováveis provenientes de recursos naturais naturalmente reabastecidos, tais como o sol, o vento, os recursos hídricos e a geotermia, e pelo crescente uso de combustíveis renováveis, como sejam os biocombustíveis, com origem em culturas energéticas, como é caso do milho, dos cereais, das beterrabas açucareiras e da cana-de-açúcar, e das plantas oleaginosas. 

Como amplamente difundido pelas organizações ambientalistas, para responder a esta acelerada procura de biocombustíveis decorrente desta transação, validada entre outras iniciativas pela politica ambiental da UE1, as culturas energéticas vêm-se desenvolvendo de forma intensiva em regime de monocultura, muitas vezes em territórios anteriormente ocupados por zonas de floresta com grande capacidade de absorção de CO2, cujos excessos de emissões se querem por sua vez evitar, exigindo elevados consumos de água e contribuindo para a perda da biodiversidade e para a desertificação. Além disso promovem e contribuem para a escassez e o aumento de preços dos produtos agroalimentares em prejuízo das dietas tradicionais anteriormente acessíveis às populações em maior ou menor grau de satisfação das suas necessidades básicas de subsistência. 

Como é de ver, a mera substituição do uso intensivo de combustíveis fósseis por idêntico uso intensivo de biocombustíveis, na produção de energia, na indústria e sobretudo nos transportes, para fazer face à redução de emissão de gases com efeito de estufa, o que à partida aparenta ser um bem em si, não contribui para a promoção da sustentabilidade através da necessária alteração de padrões de consumo e aumento de eficiência energética, sendo que o que está em causa é o próprio uso ineficiente que é feito da energia e dos recursos naturais a par do destino que se dá às emissões e aos resíduos. 

Neste particular, em complemento do uso eficiente das energias renováveis provenientes dos recursos naturais, a sustentabilidade promove-se também pela maximização da retenção desses recursos naturais, e pela sua adequada transformação antes de serem devolvidos ao ambiente com enfoque para a promoção de resíduos sólidos e emissões gasosas como fontes de valor2 e não como fontes de degradação meio ambiental irreversível. 

Acontece que em contextos recessivos, quaisquer "green shots”3 que se vislumbrem, proporcionam apetites verdadeiramente vorazes e depredadores, com retorno fugaz ao uso intensivo e ineficiente dos recursos e da energia e na promoção de resíduos e de emissões poluentes, propiciando economias de curto prazo nos processos produtivos e incentivando o lucrativo comércio de resíduos tóxicos e de emissões poluentes, ilustrando o que deve ser evitado e contrariado como comportamentos desviantes no desenvolvimento em particular da designada economia verde e das apelativas indústrias do ambiente. 

No desenvolvimento sustentável trata-se de gerir riscos emergentes, porventura geradores de oportunidades e não de dar grandes saltos em frente4 para o abismo.

Em suma, urge adotar Estratégias de Adaptação5, desenvolvendo novas comunidades de interesses e de negócios sustentáveis, com assumidos comportamentos de responsabilidade social6 e de sustentabilidade corporativa, necessariamente partilhando e regulamentando interesses globais, tendo em conta as expectativas das partes interessadas, em conformidade com a lei e em consistência com as normas internacionais de conduta, assim contribuindo para a gestão sustentável e eficiente, da energia, dos solos e da água, e dos resíduos, e para a defesa da biodiversidade, podendo a ciência e a tecnologia dar contributos inestimáveis de desenvolvimento e inovação de novas soluções para a obtenção de todos estes progressos da humanidade. 

Neste princípio do fim anunciado do business as usual exigem-se generalizados comportamentos de transição (NT "Transition Initiatives”), abrindo-se novos horizontes e desafios ao mutualismo dos riscos emergentes, repensando e retomando os bons fundamentos da atividade seguradora, de avaliação, prevenção e transferência sustentável de riscos, como suporte à adaptação a novas adversidades do presente e do futuro, com a disponibilização da informação existente atinente a coberturas catastróficas, e desenvolvendo capacidades de gestão de risco através de soluções e modelos adequados à realidade de cada exposição de risco em concreto. 

Face a esta acelerada emergência, torna-se improvável o regresso e a sobrevivência dos dinossauros, dada a sua voracidade pelos recursos disponíveis e a sua manifesta falta de capacidade de adaptação a comportamentos de transição o que aliás no passado levou à sua extinção. Resta saber se por desatenção ou persistente tolerância benevolente face a comportamentos desviantes da sustentabilidade, não estaremos a contribuir para que surjam da sombra outras criaturas terrestres porventura mais frugais e mais preparadas para a adaptação, para se tornarem na nova espécie dominante do planeta. 


Por Pedro Castro Caldas, consultor de gestão de risco


1 A UE traçou como objetivo em termos de energias renováveis, o aumento do recurso aos biocombustíveis, no sector dos transportes, com a exigência contudo que sejam sustentáveis.
2 Nomeadamente na produção de CDRs (Combustíveis Derivados de Resíduos) ( NT:RDF – "Refuse Derived Fuel”).
3 Expressão com analogias a rebentos primaveris, usada como sinal indiciador de fim de uma recessão, referida por Ben Bernanke, Chairman da Reserva Federal Norte-Americana em 2009 quando pela primeira vez, "desabrochavam” frágeis melhorias dum contexto recessivo.
4 "O grande salto em frente” (NT:"The Great Leap”) foi a política posta em prática em 1958 que visava tornar a China um forte exportador a nível mundial, estabelecendo objetivos de produção impossíveis de concretizar. O regime chinês chama-lhe ainda um desastre natural. O historiador britânico Frank Dikottër assegura que foi um dos maiores assassínios em massa da história da humanidade. O Grande Salto em Frente terá feito em quatro anos pelo menos 45 milhões de mortos. (Mao´s Great Famine - The history of China´s most devastating catastrophe 1958-1962)
5 A "estratégia de adaptação” (NT "Adaptation Strategy”) corresponde à designação adotada pela UE para adaptação faseada ao impacte das alterações climáticas complementar das ações dos Estados-Membro neste domínio
6 Guia para a Responsabilidade Social (ISO 26000/NP 4469-1): responsabilidade de uma organização pelos impactes das suas decisões e atividades na sociedade e no ambiente, através de uma conduta ética e transparente.
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