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Entrevista a Richard Ward, Chief Executive Officer Lloyd’s

Desde entregar telegramas de bicicleta até se tornar CEO no Lloyd’s, Richard Ward fala sobre a sua vida pessoal, background profissional e como trocou o mundo da ciência pelo mercado dos seguros.

Entrevista a Richard Ward, Chief Executive Officer Lloyd’s
Qual foi o seu primeiro emprego? 
Fazer a entrega de telegramas de bicicleta. Porém, o meu primeiro emprego, em termos de carreira, foi como cientista e investigador. 

Foi para o setor financeiro logo no início? Que fazia anteriormente? 
Fui cientista, investigador e chefe de uma equipa de investigação na British Petroleum. Ofereceram-me emprego no comércio de derivados como parte do programa de desenvolvimento de gestão. 

Foi Presidente executivo do international Petroleum exchange, sediado em londres, antes de se transferir para o Lloyd’s. O que foi que o atraiu no cargo do Lloyd’s? 
Foi uma proposta a que simplesmente não consegui resistir. Foi um privilégio ser convidado para chefiar uma instituição britânica como o Lloyd’s, com uma história de mais de 300 anos, e tão envolvida não só com a City, mas com o país. Quem poderia recusar? A acrescentar a isto, o Lloyd’s está na vanguarda dos serviços de seguros e financeiros; assim, foi-me impossível pensar num cargo mais aliciante. Na BP, já tinha passado da área científica para a dos negócios, uma mudança e um desafio que apreciei. Pensei que a mudança do IPE para o Lloyd’s seria uma excelente oportunidade de passar para uma indústria em que não havia trabalhado antes. 

Quais foram os que considerou serem os seus maiores desafios quando entrou no Lloyd’s?
Culturalmente, muitos dos colaboradores do Lloyd’s tinham os seus hábitos e precisavam de estímulo para melhorar a eficiência do mercado e dar o passo seguinte.

Quando teve ocasião de conhecer o mercado, o que é que o surpreendeu ou achou diferente daquilo que tinha pensado antes de fazer parte do grupo?
Visto de fora, o "underwriting room” (área de subscrição) e a maneira como os subscritores e corretores fazem os negócios podem parecer ligeiramente antiquadas, mas esta é uma das maneiras mais eficientes de colocar os riscos muito especializados.

Decorridos quatro anos, quais são os desafios enfrentados pelo Lloyd’s? 
Gerir o ciclo de seguros está ainda na linha da frente. Com as taxas fixas e, em algumas linhas, baixas, é imperioso subscrevermos negócios de qualidade para termos lucros e não para ter quota de mercado. 

A marca Lloyd’s está agora mais forte?
Com certeza. Continuámos a construir a marca Lloyd’s nos últimos anos e ela tornou-se cada vez mais forte. A nossa Análise Estratégica, executada a partir de uma postura de força mais do que de uma postura defensiva, está quase terminada. Fazemos perguntas como ‘de que maneira podemos tirar proveito de oportunidades’ e ’onde se deve focalizar o nosso negócio’, em comparação com análises anteriores que se concentraram nas mudanças a fazer para melhorar a maneira como agimos. 

O Lloyd’s tem vantagens competitivas em relação aos seus concorrentes na presente situação económica?
Sim. O Lloyd’s proporciona um nível de segurança que os outros tentam alcançar. A estrutura do mercado de subscrição de riscos significa que os beneficiários de seguros podem diversificar o seu risco, enquanto as nossas reservas centrais atuam como último recurso para os sindicatos e para os compradores de seguros. Alguns comentadores disseram que os negócios começarão a vir para o Lloyd’s, graças a esta salvaguarda. Do ponto de vista do investimento, temos sido conservadores nos nossos ativos; por esse motivo, a nossa subscrição pode assumir mais riscos. Embora esta estratégia de investimento possa ter parecido demasiado adversa ao risco nas épocas de boom, registámos lucros no investimento na primeira metade de 2009, enquanto muitos registaram perdas, e mantivemo-nos estáveis durante a crise financeira.

A recessão global teve um impacto negativo em muitas entidades de serviços financeiros. Como é que o Lloyd’s a tem atravessado?
Muito bem. Aprendemos lições importantes acerca do tratamento de ativos "tóxicos” na década de 90 do século passado e, a partir daí, transformámos os nossos negócios, reformulando a nossa gestão do risco e vigilância do mercado. Embora não estejamos imunes à crise financeira, alguns comentadores têm sugerido que, nesta tempestade, somos um porto de abrigo relativamente seguro. As nossas operações financeiras têm continuado estáveis em comparação com as dos nossos pares. 

Quais são, na sua opinião, as perspetivas para a indústria de resseguros no próximo ano?
No momento presente, o ambiente é estimulante. Há relatórios segundo os quais, em Janeiro, a renovação de resseguros teve uma queda de 6% nos EUA, queda essa que atingiu os 10% no Reino Unido. Uma vez que há também uma ausência de grandes catástrofes, esta situação deverá manter-se. 

Acha que o regime regulador da indústria será esmagado em resultado da destruição do mundo bancário?
O que agora enfrentamos não é uma crise dos seguros, mas uma crise bancária. Ao contrário dos bancos, a indústria de seguros está a operar com normalidade, aceitando o risco e pagando os sinistros. Esperamos que os reguladores compreendam e apreciem a diferença. Para o sector financeiro no seu todo, aquilo de que precisamos é de uma melhor regulamentação - não de mais quantidade - que seja proporcionada e equilibrada. A implementação da Solvência II em 2012 é o principal desafio regulatório que defronta o Lloyd’s. Apoiamos firmemente a Solvência II, que achamos ser um desenvolvimento positivo para a conciliação da regulamentação dos seguros dentro da União Europeia e o aumento dos padrões de exigência de gestão de risco. 

Não há dúvida que londres está na mira como centro dos seguros do Mundo. Os mercados locais tornam-se cada vez mais fortes e mais negócios são mantidos localmente. O que é que o Lloyd’s tem feito para se opor a esta tendência?
Embora os mercados emergentes estejam a crescer, estão longe de igualar a importância de Londres e Nova Iorque. Porém, aparte essa situação, reconhecemos a importância dos mercados emergentes e desempenhamos um papel ativo na realização de negócios nesses mercados. Abrimos o nosso primeiro escritório na China há quase três anos e fomos o primeiro ressegurador autorizado no Brasil, tendo aberto o primeiro escritório no Rio de Janeiro no ano passado. Também abrimos filiais em Portugal, na Suécia e na Irlanda, todas no ano passado. Estamos ainda a trabalhar com os reguladores na Índia, a fim de sermos autorizados a ter acesso a esse mercado. 

O Lloyd’s vai continuar a abrir filiais pelo Mundo fora? Qual será a próxima?
Trabalhamos em parceria com o mercado para ver onde há procura. Temos muito interesse em trabalhar na Índia e estamos a analisar opções no Médio Oriente. 

Outro desafio que londres enfrenta é o presente regime fiscal do reino unido. Qual a sua opinião sobre os resseguradores que estão a retirar a sua atividade do reino unido? Acha que é uma tendência que vai continuar? Qual será o seu impacto na indústria e na posição de londres?
 O facto de estarmos ainda a ver organizações que se reinstalam no estrangeiro e outras que estão abertamente a pensar nisso sugere que o Governo precisa de estar atento e escutar as preocupações do sector para manter o Reino Unido competitivo. Os impostos são, como é óbvio, um elemento na competitividade global de uma localização, mas não são o único. A nossa função é assegurar que o Lloyd’s continua a ser o mercado de eleição, valorizando os muitos benefícios de fazer negócios neste país, sendo todos eles independentes do regime de impostos. Dito isto, é essencial que o Reino Unido seja competitivo no que diz respeito aos impostos, para manter a sua posição como centro financeiro e resistir a perdas significativas de capital e atividade económica. 

Parece existir uma mudança na maneira como a Lloyd’s está a fazer a distribuição dos seus produtos. A abertura do mercado a corretores que não são do lloyd’s é vista por muitos como uma simplificação do mercado. O que pensa desta observação?
O Lloyd’s é um mercado de corretores e eles são alguns dos nossos stakeholders fundamentais; por essa razão, faz sentido abrir-lhes o mercado e não levantar barreiras artificiais à sua participação. Permitir que todos os corretores coloquem os negócios deixa-nos mais alinhados com os nossos concorrentes. Os corretores que quiserem negociar com o Lloyd’s terão que ter o mesmo nível de qualidade que os corretores do Lloyd’s. Por esta razão não estamos a simplificar o mercado. 

Como é que a alteração dos estatutos foi realmente entendida pela comunidade de corretores? Os corretores locais têm realmente vindo a inscrever-se?
Quando mudámos o LRO não esperávamos que se inscrevesse uma grande quantidade de corretores. Foi mais para nos alinhar com os nossos concorrentes e tornar o mercado acessível no futuro. 

Passemos agora à questão espinhosa do comércio eletrónico. O Lloyd’s está muito atrás de outros mercados na utilização do comércio eletrónico. Por que razão? 
Há, na realidade, uma grande utilização de tecnologia no mercado do Lloyd’s e não estamos, de modo algum, atrás de nenhum outro mercado. O nosso ponto central passa por assegurar que toda a informação é distribuída eletronicamente, deixando a colocação real do risco - o negócio entre o corretor e os subscritores – ser conduzido da maneira que for mais apropriada, quer seja cara a cara ou por via eletrónica. O negócio 'face-to-face' é uma pedra angular na maneira como o Lloyd’s faz negócios e não achamos que isto venha a mudar. Estamos neste momento a tomar várias iniciativas que verão a tecnologia como suporte dos negócios, mas o comércio eletrónico não é algo de que andemos à procura. 

Parece haver, da parte de muitos, a ideia errada de que, utilizando uma plataforma eletrónica para negociar, se anuncia a extinção do modelo corretor/ segurador. Que opinião tem a este respeito?
Os corretores e os seguradores fazem a negociação de uma enorme quantidade de questões complexas quando se coloca um risco e isto não pode ser substituído por meios eletrónicos. Onde a tecnologia oferece uma ajuda extraordinária é no suporte a este processo. 

Como tem evoluído a utilização de soluções tecnológicas pelo mercado desde que tomou posse como CEO?
Lembro-me de apresentar os resultados anuais do Lloyd’s em 2005 e dizer que estava a registar-se um grande progresso, de boa qualidade, no uso da tecnologia. Desde esse momento a utilização da tecnologia faz parte dos negócios de todos os dias. Agora o Lloyd’s aprecia, por meio da eletrónica, mais de 90% dos sinistros e dos prémios; e também todas as novas apólices são emitidas eletronicamente. Os corretores e agentes estão também a aproveitar as novas infra- estruturas de mercado eletrónicas para dinamizar as transações, reduzindo os seus custos e, ao mesmo tempo, melhorando a qualidade do serviço prestado aos clientes. Também lançámos, com sucesso, o Lloyd’s exchange, um centro de mensagens que vai permitir o envio e a receção de mensagens eletrónicas entre corretores e seguradores, a um nível ACORD. Isto permite que os seguradores e os corretores enviem pedidos de alteração, mensagens de colocação e outras comunicações detalhadas utilizando um nível de qualidade comum e um único interface. O mercado deu a isto um grande apoio, tendo-se inscrito para o utilizar mais de 60% de corretores e 80% de agentes.

Consegue imaginar o dia em que o lloyd’s siga outros mercados, como o iPe? 
O IPE e o Lloyd’s são mercados completamente diferentes e não podem comparar-se. O IPE é um mercado de compra e venda, com o preço como única variável, ao passo que o Lloyd’s se ocupa de negociações detalhadas entre corretores e seguradores acerca de soluções à medida dos riscos dos clientes.

Para terminar, e como estamos no início de 2010, quais foram as suas decisões para o ano novo, se por acaso as tomou? Se tivesse de subscrever algumas resoluções a tomar pelo Lloyd’s, quais seriam?
Para o mercado, seria que continuasse a ser disciplinado na subscrição de negócios, com vista à obtenção de lucros, e não só para obter quota de mercado. Para o próprio Lloyd’s, que continue a tomar iniciativas que melhorem a eficiência do mercado e o acesso a este. 

Onde nasceu/foi educado? Frequentou a universidade?
Nasci a oeste de Londres e tenho uma Licenciatura com a informação final de Muito Bom e um Doutoramento em Química Física pela Universidade de Exeter. 

É casado? Tem filhos?
Sou casado e tenho dois filhos. 

Quais são os seus ‘hobbies’? 
Andar de ‘dinghy’ (pequeno barco a remos), jogar hóquei e fazer ski.
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