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Entrevista a David Gittings

David Gittings é diretor executivo da Lloyd’s Market Association (LMA), a associação que representa os seguradores no mercado de Londres de seguro e resseguro. Gittings tem desempenhado um papel essencial no mais recente esforço do mercado para fazer face a alguns desafios críticos identificados.

Entrevista a David Gittings
Qual é o seu background? Como chegou à liderança da LMA?
Frequentei a Universidade de Londres e licenciei-me com mérito em Direito. O início da minha carreira foi passado na Bolsa de Valores de Londres, onde contribuí para a modernização do mercado, que resultou no "Big Bang” de 1986, a desregulação do mercado financeiro de Londres.
Entre 1995 e 2002 fui Director of Regulation no Lloyd’s, onde desenvolvemos e implementámos um regime regulamentar que respeitava as metas da FSA [a entidade reguladora do sector financeiro no Reino Unido] antes da mudança para a regulamentação imposta pela própria no final de 2001.
Em 2002, ingressei na Wellington Underwriting plc, tendo sido membro da Comissão Executiva do Grupo e diretor da Wellington Underwriting Agencies Ltd. Tornei-me Chief Executive da Lloyd’s Market Association em dezembro de 2006.


Quais são as suas impressões sobre as suas funções desde que as assumiu há oito anos? 
Tem sido uma ótima experiência. Temos uma grande equipa e um grande apoio do mercado, o que é absolutamente fundamental para alcançar progressos efetivos num mercado como o Lloyd’s.


Alguns corretores e gestores de risco costumam dizer que gostariam de usar mais o Lloyd’s, mas sentem que às vezes é um mercado difícil de compreender e em que não é fácil entrar. Esta é uma questão que o preocupe e em que a LMA esteja a trabalhar como parte do processo global de reforma? 
É interessante, e obviamente positivo, saber que os gestores de risco gostariam de colocar mais negócio no Lloyd’s. O relatório do Boston Consulting (ver caixa) sugere que alguns gestores de risco estão a ter mais dificuldades para justificar a colocação de seguros em Londres e cada vez mais optam por adquirir cobertura nos mercados locais. Existe também a perceção de que o Lloyd’s não é o sítio mais fácil para negociar. É aqui que reside a importância do relatório do Boston Consulting. Deu-nos provas reais acerca de um conjunto de suposições que fizemos no mercado. Por exemplo, tínhamos a sensação de que o Lloyd’s estava a negociar menos em mercados emergentes e de que estávamos a perder quota de mercado no resseguro, mas não havia números a apoiar esta perceção.


Quais foram os principais desafios levantados pelo relatório do Boston Consulting? 
Uma das áreas chave a que demos atenção baseava- se nos comentários realizados pelos CEOs das principais empresas de corretagem, que afirmaram que já não estavam a colocar tanto negócio em Londres como o fizeram no passado. Disseram que os mercados externos tendiam a ser mais eficientes. O relatório também sustentava esta ideia, mostrando que negociar com o mercado de Londres é mais caro do que negociar com outros mercados em cerca de 9%. Mais uma vez, o relatório fornecia números reais que provam uma suposição.
O custo da regulação e do processamento das apólices é mais alto em Londres. Uma outra área-chave identificada tem a ver com o facto de que, embora Londres goze de uma já longa reputação quer no que respeita à inovação quer em estar preparada para considerar riscos que outros mercados tendem a ignorar, a verdade é que o mercado não tem uma posição forte e de liderança nos principais riscos emergentes ou, pelo menos, esta é a perceção que existe.


O que estão a fazer em relação a isso? O que pode a LMA, enquanto associação de mercado, fazer para ajudar a resolver estes problemas e a introduzir alterações no mercado por forma a que negociar com Londres seja mais fácil e mais eficiente? 
Uma das primeiras coisas que decidimos foi que era necessário abordar este problema de perceção. Tínhamos que perceber como voltar a colocar Londres no mapa como centro de excelência no mercado internacional de seguros. Decidimos que precisávamos de um selo de excelência para Londres. Wall Street é conhecido pela banca, Bordéus pelo vinho, a Suíça pelos relógios. Por isso, decidimos que precisávamos de encontrar uma forma de ter um selo de aprovação para os seguros negociados no mercado de Londres. É necessária uma resposta de marketing.


E quanto ao próprio processo de colocação? Será possível criar uma resposta do mercado que faça com que seja mais fácil e mais barato negociar com Londres? 
Sim, isto é algo crítico. Houve muitas iniciativas ao longo dos anos para o conseguir, mas eram muito fragmentadas e careciam de uma visão que procurasse realmente tornar o processo de negociação com Londres mais eficiente para corretores e clientes. Isto significa que os corretores e gestores de risco têm de sentir confiança no funcionamento eficiente e transparente do sistema desde o momento em que o negócio é colocado até ao fim, quando os sinistros são pagos. Tudo isto exige uma agenda concentrada e um forte compromisso.


Esse é um objetivo louvável que certamente facilitará o recurso a este mercado por parte dos corretores e gestores de risco internacionais. Mas como irá ser concretizado? 
Os principais órgãos representativos do mercado — a LMA, em representação do mercado de subscrição do Lloyd’s, a International Underwriting Association (IUA), em representação do mercado de seguros não-Lloyd’s, e os corretores, representados pela London International Insurance Brokers Association (LIIBA) — são todos, por sua vez, membros do London Market Group (LMG). Este organismo foi criado para estimular o processo de modernização do mercado e assegurar que todas as partes cooperam para o benefício comum. Sou membro do conselho de administração do LMG juntamente com Inga Beale, CEO do Lloyd’s, David Matcham, CEO da IUA e outras figuras de relevo no mercado.
Em 2013, o relatório Future Process promovido pelo London Market Group (LMG) concluiu, entre outras coisas, que o acesso ao mercado por parte dos corretores e dos gestores de risco tinha de ser melhorado, tendo sido decidida a disponibilização de uma plataforma central de colocação de seguros. A ideia era a de que esta plataforma iria apoiar um processo de negociação flexível, facilitar o acesso ao mercado e permitir um processo de colocação mais rápido, em benefício do cliente.
A plataforma apoiaria as negociações tradicionais "cara a cara” e as colocações puramente eletrónicas ou uma combinação de ambas. As associações de mercado concordaram que uma solução deste tipo poderia resultar melhor através de uma ferramenta para o mercado. Era fundamental conquistar o apoio dos principais corretores e seguradores para um projeto deste tipo e, quando o conseguimos, criámos a Placing Platform Limited (PPL). A função da PPL era estabelecer uma relação de mercado com um fornecedor de software para o fornecimento, manutenção, administração e gestão da plataforma.
Esta abordagem tem um conjunto de vantagens, como: melhoria do serviço ao cliente graças à transparência de processos, tempos de resposta reduzidos e taxas de erro mais baixas; acesso simplificado ao mercado para corretores e seguradores; criação de um ponto único de armazenamento da informação essencial para a colocação de seguros e processos de auditoria; eficiências operacionais graças à baixa necessidade de reorganização e reintrodução de dados; evitar uma abordagem fragmentada em situações em que existe um conjunto de várias soluções com diferentes níveis de capacidade.


Porque é que foi necessário criar uma nova empresa — a PPL — para avançar com este processo? O que se segue? Quando é que é expetável que os corretores passem a considerar Londres como um local mais fácil para negociar?
A criação da PPL foi crítica para assegurar uma abordagem coordenada e transversal ao mercado, com vista ao desenvolvimento de um suporte eletrónico para a colocação de seguros, que respondesse verdadeiramente às necessidades do mercado. Esta abordagem irá acelerar a aceitação do mercado por via de um trabalho conjunto e simplificar o processo de contratação, uma vez que passa a existir um único organismo de colocação e um mecanismo transparente de definição de preços para os participantes no mercado.
Ninguém tem a presunção de que o trabalho está terminado, uma vez que se trata de uma tarefa muito complexa, com muitos pormenores e que envolve diferentes intervenientes. Mas estou mais confiante do que nunca que seremos bem sucedidos. Existe ainda muito papel no sistema, e é preciso eliminá-lo. Iremos desenvolvendo e alargando a utilização do sistema nos próximos dois anos.


O relatório do Boston Consulting Group identificou o crescimento da titularização como um dos grandes desafios do mercado, uma vez que é uma alternativa ao resseguro tradicional. Mas o relatório também concluiu que esta poderá ser uma oportunidade se Londres se estabelecer como o mercado ideal para estes veículos. Como pode o mercado de Londres dar resposta a este desafio? 
O governo do Reino Unido anunciou planos no último orçamento para investigar se deveria promover o crescimento de um mercado de Insurance Linked Securities (ILS) em Londres. Os impostos e o ambiente regulamentar são áreas importantes de reforma em que achámos que a contribuição do governo seria realmente importante para contribuir para que Londres possa ser um mercado para os ILS. Trata-se de um mercado internacional em rápido crescimento, que, em alguns aspetos, concorre com o mercado de resseguro londrino.
Recomendámos a criação de um grupo de trabalho para estudar de que forma este mercado poderia beneficiar Londres e foi criada uma equipa de especialistas para investigar e compreender melhor este mercado e o seu potencial, sendo que os resultados foram muito positivos. Este grupo encontra-se agora em diálogo com o HMT, o Departamento do Tesouro do Reino Unido, para fazer esta ideia avançar, tendo a primeira reunião ocorrido recentemente.


E quanto às pessoas e talento? Este continua a ser um mercado dominado pelas pessoas. Os corretores e gestores de risco costumam dizer que precisam de poder contar com profissionais competentes e dedicados nos seguradores para os ajudarem a gerir e a transferir devidamente o risco. Esta questão faz parte da vossa estratégia? 
Trata-se de um elemento muito importante da estratégia. O estudo Vision 2025 do Lloyd’s, publicado em abril deste ano, afirmava que o Lloyd’s necessita de atrair os melhores talentos e proporcionar uma rápida progressão na carreira para os que demonstrem maior potencial. Afirmava igualmente que o Lloyd’s será um mercado "diversificado e inclusivo” e as pessoas irão espelhar cada vez mais a origem geográfica dos negócios e do capital.
Temos orgulho na nossa capacidade para atrair e contratar os melhores talentos, e Londres, tal como o mercado de seguros internacional em geral, fez um enorme progresso nesta área nos últimos tempos.
O problema é que continuamos a recrutar de forma muito convencional nas melhores universidades do Reino Unido, o chamado Russell Group. Não sendo propriamente um problema, existem fontes de talento que não estamos a explorar e temos de construir um grupo que reflita de forma mais precisa a nossa base de clientes, que é cada vez mais diversificada. Continuamos em busca de uma estratégia coerente nesta área tão importante.


O que lhe parece o facto de Londres estar a atrair cada vez menos negócio oriundo dos mercados emergentes? Como pretendem aceder a estes mercados emergentes sem perder a vantagem competitiva decorrente do facto de, historicamente, os negócios serem angariados pelos corretores para Londres? 
Trata-se de uma grande questão estratégica para o Lloyd’s e para os demais mercados internacionais de seguro e resseguro. A resposta a esta procura crescente de coberturas e serviços locais explica, em parte, a recente vaga de consolidação no mercado, numa altura em que os seguradores internacionais procuram alargar a sua influência e construir uma rede global para responder às necessidades de clientes multinacionais.
A boa notícia é que o mercado está realmente a unir forças nesta área. Steve Hearn, chairman do London Market Group, fez um trabalho extraordinário ao reunir o mercado para discutir a melhor maneira de avançar e garantir uma abordagem coerente. Não escolheria um país ou uma região em particular para nos focarmos, mas não tenho dúvidas de que temos de procurar uma maior expansão na América Latina, no Médio e Extremo Oriente, tendo já sido feito algum progresso com operações no Brasil, no México, em Singapura e, mais recentemente, no Dubai.


Que tipo de análise desenvolveram junto dos gestores de risco e seguros — os vossos clientes por excelência — de forma a saberem o que pretendem e necessitam do mercado e que tipo de melhorias gostariam de ver implementadas? 
Temos uma relação próxima com a AIRMIC, a associação de gestão de risco do Reino Unido, e recebemos feedback muito útil. Neste contexto, descobrimos que não somos realmente tão bons como pensávamos e que poderíamos melhorar na ótica do cliente. Participei num painel com Edwin Meyer, da Arcelor Mittal, que, infelizmente, faleceu há pouco tempo. Foi uma verdadeira lufada de ar fresco estar num painel com um cliente tão eloquente e direto. Edwin foi muito claro ao afirmar que não estava interessado em que lhe vendessem produtos tradicionais por diferentes subscritores com perspetivas divergentes. Segundo Edwin, tanto ele como outros gestores de risco procuram uma abordagem mais holística e, acima de tudo, querem conhecer verdadeiramente os gestores de sinistros com quem terão de lidar em caso de sinistro.
Acrescentou que não se sentia muito confortável com o facto de um corretor abordar o mercado para obter cobertura para o seu risco sem o seu envolvimento. Referiu também que o facto de as apólices estarem habitualmente em inglês não é um elemento facilitador. As questões levantadas por Edwin Meyer, embora pessoais, foram, em certa medida, corroboradas pelo relatório do Boston Consulting.


E os corretores? São os principais clientes do mercado de Londres. Qual é a sua visão geral, incluindo a expansão da Lloyd’s nos mercados emergentes? 
O documento estratégico Vision 2025 do Lloyd’s considera que os corretores são críticos para o futuro do mercado. Neste estudo, afirma-se que o Lloyd’s será um mercado de corretores e que irá por um lado consolidar relações com as empresas de corretagem de maior dimensão, promovendo, por outro, corretores especialistas em certas áreas. Coverholders e empresas de serviços permitirão um acesso eficiente aos mercados locais e os corretores terão a mesma facilidade em aceder ao Lloyd’s, tal como aos operadores locais.
O estudo afirma ainda que a cadeia de distribuição será otimizada graças à utilização eficiente da tecnologia, como já referido. Além disso, o Lloyd’s terá uma presença local, em alguns casos com escritórios, nomeadamente em mercados internacionais em que tal seja necessário por exigências de ordem regulamentar ou comercial.
O mercado obteve recentemente licenças em países emergentes como a Colômbia e o México. Conseguimos também enormes avanços em outros mercados emergentes já mais desenvolvidos, como a África do Sul, o Brasil e o Chile. Em todos eles, estamos a tentar perceber como poderemos tornar o Lloyd’s mais local. Isto pode significar que precisamos de capital local ou até de constituir empresas, o que é um modelo novo para o Lloyd’s, que, historicamente, se baseava unicamente no sistema de licenças para desenvolver negócio. Por esta razão, definimos dois grupos de estudo para identificar oportunidades e determinar o seu potencial de investimento.
Em primeiro lugar, o Opportunity Group faz uma análise aprofundada das oportunidades e verifica se existe potencial de negócio para o Lloyd’s. Em seguida, e assim que as oportunidades são identificadas, o Operational Group verifica o que é realmente necessário para obter a licença e quais seriam os custos do processo. Em alguns mercados, como a China, os lucros podem não ser imediatos, mas é crucial estar presente agora a pensar na próxima geração.


E os serviços no terreno? Num mercado altamente competitivo como este, trata se de um elemento essencial para os corretores e os gestores de risco. Para estes profissionais, é importante e necessário que a documentação e os sinistros sejam tratados com eficiência e sem complicações. O que está o mercado a fazer nesta matéria? 
Exerço estas funções há já oito anos e tenho de dizer que as coisas mudaram muito durante este período. O mercado melhorou o seu nível de resposta no que respeita aos sinistros e ao serviço prestado e está verdadeiramente empenhado nesta matéria. Existe uma perceção cada vez mais generalizada de que, em áreas como a dos sinistros, o mercado tem de atuar como um todo, e não numa lógica de concorrência.
Mais uma vez, este é um dos objetivos-chave do documento estratégico Vision 2025, no qual se afirma: "O Lloyd’s será um mercado de subscrição, com serviços centrais eficientes que permitam um processamento impecável capaz de apoiar uma negociação presencial e uma gestão de sinistros de nível mundial.” Temos desenvolvido um esforço conjunto nesta área e eu penso que é justo dizer que o Lloyd’s tem uma boa reputação no tratamento de sinistros de grande dimensão e complexidade.
Como referi atrás, há muito trabalho a ser feito para melhorar o processo de gestão de sinistros no mercado e este é um desenvolvimento relevante, uma vez que os corretores e os clientes terão a possibilidade de aceder ao sistema e verificar exatamente qual é o estado do sinistro. A transparência é muito importante no mercado atual.


Finalmente, temos a grande questão da inovação. O que poderá o mercado fazer para melhorar a rapidez de resposta às exigências dos clientes, no que se refere a coberturas inovadoras em áreas de riscos emergentes como o cyber e supply chain? 
Essa é outra área-chave identificada nos objetivos do Vision 2025. O documento indica que o Lloyd’s será um mercado onde o empreendedorismo e a inovação se continuarão a desenvolver.
É um facto que as grandes empresas procuram programas mais ajustados às respetivas necessidades e que o mercado tem de dar resposta. Em grande medida, cabe ao corretor a identificação desta necessidade e ao underwriter o desenvolvimento da cobertura correspondente. Não tenho a certeza de que esta seja uma área que o mercado possa comandar de forma centralizada. Podemos ajudar à criação de um ambiente de incentivo à inovação, mas, em última instância, cabe aos corretores e aos underwriters o papel de se diferenciarem da concorrência, através da apresentação de produtos e de serviços inovadores.


Entrevista por Adrian Ladbury


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