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Blockchain: o próximo disruptor?

A tecnologia Blockchain oferece a possibilidade de simplificar transações entre as diversas partes envolvidas num contrato de seguro

Blockchain: o próximo disruptor?
Os seguros de Riscos Empresariais, com várias partes envolvidas, são extraordinariamente complexos no seu processo.

O processo de cotação, prestação de serviço e gestão de um programa de seguros empresariais é um emaranhado complexo de comunicações e transações entre Clientes, corretores de seguros, co‑seguradores, resseguradores, cedentes, cativas, parceiros da rede, peritos, advogados externos e autoridades fiscais e de supervisão. São partilhadas enormes quantidades de informação; são assinados (e executados) inúmeros contratos, sendo transferidos fundos entre os diferentes participantes.

Também o volume e a complexidade destas comunicações e transações crescem exponencialmente à medida que os negócios dos Clientes se tornam mais globais e incluem operações em diversos países.

Poderia o Blockchain tornar possível a gestão destas transações complexas entre várias partes mais eficiente e segura, e com um menor custo?


Não se trata apenas de criptomoeda

Alguns comentadores caracterizaram o Blockchain como a 5ª maior onda em informática, depois das mainframes, PCs, a internet e as redes sociais, e preveem que será revolucionário em muitas indústrias, incluindo a dos seguros.

O Blockchain foi desenhado inicialmente como a tecnologia subjacente às transações em Bitcoins. E enquanto a Bitcoin e outras criptomoedas continuam a evoluir – independentemente dos recentes ataques de hackers – os profissionais da tecnologia estão cada vez mais interessados no facto de a flexibilidade e adaptabilidade do Blockchain poderem contribuir para uma maior eficiência, transparência e segurança numa grande variedade de setores.


Mas afinal o que é o Blockchain?

O Blockchain é um registo de transações permanente e partilhado entre diversas partes em que utilizadores devidamente autorizados podem aceder à história de uma transação comercial, permitindo assim uma maior transparência e simplificação do processo de conciliação entre todas as partes envolvidas.

Num Blockchain, um lote de transações válidas, ou "blocos”, são ligados entre si formando uma cadeia, daí o seu nome. Cada bloco é carimbado com uma determinada hora e inclui a assinatura única (ou "hash”) do bloco anterior; estas assinaturas servem para confirmar a integridade da cadeia.

Cada membro de um Blockchain possui a base de dados, embora esta não seja controlada por uma única entidade. Além do mais, todos os utilizadores autorizados dispõem sempre de uma cópia atualizada e as novas transações não podem ser validadas até que sejam conciliadas com a última versão. Isto significa que é praticamente impossível cometer fraude e que não é necessário que um intermediário verifique a informação entre as partes.

E porque a informação adicionada a um Blockchain não pode ser alterada, este permite um registo inalterável e auditável de todas as transações.

Finalmente, os Blockchains são extremamente flexíveis e podem ser usados não só para documentar o curso de uma transação comercial, mas também para monitorizar bens tangíveis tais como escrituras, equipamento alugado e bens valiosos como joias ou obras de arte.


É possível otimizar os processos de seguros?

A tecnologia Blockchain oferece a possibilidade de simplificar transações entre as diversas partes envolvidas num contrato de seguro e melhorar a forma como as empresas delegam autoridade e processos de pagamentos e conciliam negócios. Os potenciais benefícios incluem tempos de resposta mais curtos, assim como uma maior segurança e qualidade dos dados.

Por exemplo, cada participante num contrato de seguro em que existem vários intervenientes, poderia aceder a cópias idênticas contendo informação sobre a data de início do risco e a documentos legais, e assim otimizar o processo de oferta, negociação e formalização da contratação de uma apólice.

O Blockchain e "contratos inteligentes” poderiam também oferecer benefícios para seguradores que trabalham com entidades com poderes delegados de subscrição como os managing agents (MGAs)1 ou entidades terceiras prestadoras de serviços (TPAs)2.

Nestes modelos operativos, os seguradores e corretores, geralmente pagam a terceiros para agregar e validar a informação vinda de MGAs e TPAs. Um Blockchain que ligasse seguradores e autoridades com delegação de poderes de subscrição poderia eliminar a necessidade de tais intermediários.

A tecnologia também se presta a contratos inteligentes onde um Blockchain é programado para executar ações específicas após a satisfação de um conjunto de condições. Com contratos inteligentes ativados pelo Blockchain, por exemplo, os pagamentos entre os Clientes, corretores, e (res)seguradores poderiam ser acionados automaticamente mediante a verificação de certas condições.

Por exemplo, um Blockchain poderia ser criado com vista à automatização do pagamento de sinistros, desde que as coberturas e o capital seguro tivessem sido validados. Isto beneficiaria os clientes reduzindo o tempo de regularização dos sinistros e os resseguradores através de ganhos de eficiência.

A tecnologia poderia também ser usada para emitir certificados em múltiplos países ou para movimentar quantias entre uma empresa cativa e a empresa‑mãe.

Por agora, estas e outras aplicações potenciais são apenas isso – potenciais – já que a indústria (res)seguradora está ainda a começar a utilizar o Blockchain em algumas áreas de teste.

Nesta fase inicial, o maior foco está em transações onde há várias partes envolvidas e em que é necessário um registo histórico e indiscutível, passível de verificação. Para transações e processos sem estas características, as bases de dados convencionais ou os terceiros prestadores de serviços continuarão a ser uma opção mais simples e fácil.


Impacto noutros setores

Também há um interesse crescente na tecnologia Blockchain noutros setores da indústria. Coindesk, um site que segue Criptomoedas e Blockchain, relata que durante o primeiro trimestre de 2016, "o investimento total em capitais de risco em startups de Bitcoin e Blockchain excede já os 1,1 mil milhões de dólares.” E têm sido feitos investimentos recentes, de forma surpreendente, em startups relacionadas com Blockchain enquanto que os investimentos em startups relacionadas com Bitcoin unicamente focados em pagamentos e transações estão em declínio.

A próxima geração de aplicações Blockchain, por exemplo, poderia facilitar acordos imobiliários otimizando transações entre compradores, vendedores, intermediários, bancos e seguradores especialistas em title insurance3 e, também documentando o histórico do contrato e a propriedade efetiva dos edifícios. De facto, alguns observadores sugeriram que Blockchain poderia excluir a necessidade de title insurance, já que os dados relativos às propriedades estão validados e armazenados num Blockchain.

O Blockchain também pode ser usado para fazer a localização de bens. As grandes câmaras de compensação de diamantes, por exemplo, presentemente tiram "impressões digitais” dos seus diamantes para provar a sua procedência, e esta informação poderia ser armazenada com segurança num Blockchain que esteja disponível a compradores, corretores, seguradores e autoridades policiais. A mesma abordagem poderia ser usada relativamente a outros bens, tais como obras de arte e artefactos.

As empresas de aluguer também estão a ver o Blockchain como um mecanismo mais simples e eficiente para fazer o seguimento dos seus ativos. E o Blockchain poderia ser usado para monitorizar equipamento e materiais em obras e facilitar agendamentos em projetos onde há muitos empreiteiros e sub‑contratistas.


É o fim do mundo como o conhecemos (e estamos confortáveis com isso)

A Bitcoin e a tecnologia subjacente Blockchain foram introduzidas como software de livre acesso em 2009. Desde então, tem havido a perceção crescente de que um registo seguro e descentralizado que acompanhe bens e transações é uma ferramenta poderosa e flexível. Os observadores estão divididos sobre se os efeitos potencialmente radicais e transformadores da tecnologia Blockchain serão uma realidade a curto prazo – um ou dois anos – ou se estão ainda a uns 5 a 10 anos de distância.

Qualquer que seja o calendário previsto, a XL Catlin está interessada nas possibilidades, e exploramos ativamente várias iniciativas Blockchain para compreender onde e como a tecnologia poderia ser mais relevante. E ainda que seja demasiado cedo para dizer qual a rapidez com que o Blockchain será implementado em (res)seguradoras e empresas de outros setores, acreditamos que será tão revolucionário para as transações financeiras com vários intervenientes como as folhas de cálculo o foram para a contabilidade.


Por Doug Alexander, Digital Enterprise Architect na XL Catlin


Fonte: State of Blockchain Q1 2016: Blockchain Funding Overtakes Bitcoin. (n.d.) Retirado de: www.coindesk.com/ state‑of‑blockchain‑q1‑2016/

Agente gestor – agente / corretor de seguros especializado que, ao contrário dos agentes / corretores tradicionais, tem autoridade de subscrição concedida pelo segurador. Desta forma, as agências gerais de gestão (Managing general agencies – MGA)
desempenham certas funções, habitualmente da responsabilidade dos seguradores, como a celebração de contratos, a subscrição e a definição de preços, a nomeação de mediadores de seguros numa determinada área e a regularização de pedidos de indemnização.

Entidades terceiras prestadoras de serviços – empresa que assume vários tipos de responsabilidades administrativas, que cobra honorários pelos serviços prestados a organizações envolvidas em programas de cash flow. Habitualmente, é responsável pela gestão de pedidos de indemnização, pela avaliação de perdas, pelos sistemas de informação de gestão de riscos e pela consultoria de gestão de riscos.

Nota do Editor – Title Insurance é um tipo de seguro comum nos EUA, que protege os proprietários de imóveis e as entidades que concedem crédito contra perdas ou danos que possam sofrer devido a vicíos nos títulos de propriedade.
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